segunda-feira, 30 de maio de 2011

Por uma grama úmida e ar gelado

Uma fita cassete com um disco clássico dos Stones, um sapatinho da Malu (da época em que tinha 1 ano) e um violão de segunda mão são os meus pertences mais valiosos.Quero dizer, com isso, que com essas tendências capitalistas ficou mesmo difícil superar aquele filosofo que só possuía uma xícara e ainda a jogou fora quando viu uma criança bebendo água na palma das mãos em uma fonte.
Talvez algum inocente que tenha uma coleção de camisas pólo pense, aposte, precipitadamente, que se trata de mais um pseudo-comunistazinho-fracassado que usa da (de)negação como desculpa para a sua falta de posses, para sua intenção anti-capitalista, para seu dissabor com relação a shoppings e mc donalds...sinto dizer garoto dinamico-proativo-engajado-disponivel-capacitado-atualizado e bem-sucedido, mas você está errado.
Primeiro: penso que não há nada demais em ter uma Ferrari, um duplex em Ipanema ou heliporto particular, tampouco em ter uma casa em N.Y próxima ao central park ou uma coleção de tênis Nike.
Nada de errado,absolutamente.
Definitivamente, não há nada de errado em consumir.
O problema, é quando se consome é preciso bancar isso, logo, para um pobre, iludido com “status quo” de classe media, isso significa vender aquilo que Marx denomina “força de trabalho”.Quando se consome mais, é preciso vender mais e, como estamos distantes da flexibilidade de um Zuckerberg, estamos falando de T-e-m-p-o.E tempo é dinheiro(afinal, quem nunca entendeu essa expressão antes, eis a oportunidade).Isto é, consumo é igual a menos tempo para usufruir do consumido e mais tempo para “suar” para pagá-lo.Quero dizer, com isso, que há uma inversão naquela lógica inocente de “trabalho para ter conforto”, afinal, parece que se tem conforto para trabalhar mais, solamente...
É uma lógica perversa para os pobres.
E uma lógica graciosa com aqueles que estão montados em dólares, afinal, o tempo, no caso deles, segue uma linearidade inversa- mais tempo para gozar o consumido, já que o tempo que despendem é só o de sacarem o cartão de crédito do bolso.
Desse modo, depois de três décadas, eu conclui que o melhor é consumir o mínimo possível porque consumir é bom, mas tempo livre, para mim, é fundamental,indispensável.
Ao longo de uma década venho me preparando(ou é uma sequela Supertramp!) para a minha segunda carta de alforria: a libertação dessas lógicas de mercado, desde o processo instaurado, que é o consumo, até os pilares básicos, que são processados ainda na lógica do desejo humano. Percorri um caminho psicanalítico e alternativo demais para continuar a fazer parte disso tudo sem sofrer nenhum dano cerebral, então, penso mesmo que devo pular fora.
Em vinte terças, no máximo, estarei livre de tudo. Entrarei de sola na maturidade...
Isso significa tempo para livros, filmes, Malu, música, mulher, pijama, viagens, cinema e pouquíssimo dinheiro no bolso, ou nenhum, tanto faz. Quando exponho isso aos meus amigos, eles sempre ficam incrédulos, afinal, como será possível viver assim, sem uma renda fixa, alias, sem uma alta-renda-fixa. Sempre digo o seguinte: vou descobrir. Marx acreditava que, com o tempo livre e sua libido pronta para ser investida em outras atividades que não a produção capital, o pobre operário poderia encontrar algo para fazer que lhe garanta sobreviver e satisfazer-se. Veremos...
Caso não dê certo, ainda tenho a alternativa do Gibran: mendigar diante das igrejas. Basta estar preparado para ser chamado de vagabundo e filisteu.
Depois de três décadas eu finalmente serei liberto de mim e das apreensões globais. Certo é que isso tem um preço: errância.E quando digo errancia, não interprete isso como “errar”...nesse caso, quer dizer o mesmo que andar, isto é, navegar, velejar,viajar através dos dias, meses, anos sem ter um porto seguro ou rotina, sem ter “chefes”, balizas temporais, sem ter um contrato fixo de trabalho, sem ter que programar folgas e viagens de acordo com os gostos do patrão, sem ter que dizer a ninguém quais serão os primeiros e últimos raios-de-sol que verei ao cabo de um dia, sem saber em que cidade estarei morando nos próximos anos(já morei em tantas), sem saber de nada, ou seja, ausência total de fixidez.Terei um único sol como guia: minha filha, afinal, o amor que lhe dedico e minha posição[de pai] me colocam numa situação de provedor que sempre me foi suave e que nunca deixarei de cumprir; uma tarefa doce e circundada pelos aromas do amor.Minha amada também não terá do que reclamar, nunca recebera flores cujo único cheiro é o de notas sujas e trabalho escravo;recebera ramalhetes colhidos pelas mãos da liberdade e da paixão, e as frutas que lhe forem postas a boca serão colhidas direto da arvore do desejo.
Ainda levara um tempo até que eu esteja formado (Psicologia), de modo que ainda ficarei por essas plagas mais alguns anos.
Depois disso, tomara que eu possa mesmo estar ao lado Del Camino.
Penso em permanecer nesse estado “fluido” por, no mínimo, dez anos, com um único precedente: caso encontre nesse meio tempo algo que seja definitivamente importante para mim e para a humanidade.
Nenhuma outra jaula me segurará.
Espero ser realmente feliz nesse longo período em que estarei debruçado sobre mim, não obstante, sobre o mundo...
E dificilmente não serei, tendo como grandes necessidades a grama úmida e o ar gelado.E uma longa rua para percorrer, chamada Liberdade.
Eis a minha oração para os espíritos livres.


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Osama e as Mulheres

O Osama era um sujeito perigoso, usou a mulher como escudo, e agora, mesmo morto, é ainda mais odiado por um mundo felizmente feminista e que vê, no advento da sua morte, a morte deste anti-romantismo que habita o coração do homem moderno (ou “pós”).
O homem bomba pode ser tachado agora de mártir do anti-romantismo: vai ser lembrado para sempre como aquele que fez de sua mulher um objeto de guerra – um escudo.
Os homens brutos como ele serão mesmo capazes de chorar, afinal, demonstrar a sua bandeira anti-romântica assim, publicamente, é mesmo um ato de coragem, heróico, porque, geralmente, esse tipo de homem prefere calar, silenciar, deixar sua parceira perdida no infinito de sentimentalidade e intuição que ela possui. Jogá-la no seu labirinto de emoções e gozar da sua falta de consciência e imaginação coçando o saco, sentindo-se um “machão”, “garanhão”, “destruidor de corações”, comandante dessa nau que eles chamam de relação; e que elas, sabiamente, chamam amor.
O homem bomba operou uma catarse bombástica no coração triste e amofinado da racionalidade feminina.
Agora, as mulheres sabem que o fim do homem que as usa como objeto é um só: a morte; e um velório sem pompa em meio a tubarões e sacolas plásticas.
Certo é que as mulheres já não precisam de homem bárbaro desses.
Certo é que não precisam também de certas flores que circulam por aí, bem longe da primavera...
Agora, aquela lembrança daquele cafajeste que a magoou foi lavada pela bala da US-ÉS-EI(USA).Aquele malandro desvirginador inconseqüente que se foi – pá! Levou bala. Aquele que deu o golpe financeiro e deixou a donzela cheia de contas pra pagar- pá! Aquele outro, que só queria aventura- pá. O espertinho do condomínio- pá. O “do carrão”- pá. O marxista fajuto-pá. O poeta fingidor- pá. O casado e a sua promessa de separação- pá, pá!!! O conquistador da net- pá, pá!!! O namorado que deu aquela “fugidinha” e esqueceu o tíquete de consumação no bolso- pá, pá, pá!!! Todos morreram com o Osama.
E o espírito feminino vingado sente-se na melhor das primaveras...
Para os céticos, basta um olhar mais demorado sobre esse bando de canalhas. Verão que estão mais calados do que nunca. Que lhes falta assunto e ereção como nunca. Que já não estão tão concentrados no polimento do carro e na verificação do estoque de cervejas. Que já não sorriem para qualquer menina de “shortinho”, que já não cospem tanta asneira no mundo...
Um luto profundo.
Uma nostalgia daquele tempo que se podia desprezar uma mulher e ficar ainda mais “gostoso”.
Daquele tempo em que a submissão e a “função-escudo” eram uma condição sine qua non para uma “relação”.
Agora, quando a “mulher-chefe” chega, é recebida de pé.Não é uma questão de medo, puxa-saquismo ou educação; é um caso de morte!!! Aquele modelo folgazão anda cochichando pelos cantos, falando baixinho, excomungando a “patroa”, no entanto, toda vez que vê um cachecol tem calafrios...
Aquele sorrisinho debochando da mulher quando eram chamados de “benhê”, quando escutam isso, olham para trás com lágrimas nos olhos...
A mulher já avançou e superou o homem em inteligência, afinal, tem a formula razão + intuição, que é imbatível.
Só faltava mesmo era a morte do Osama.
Agora, não tenham dúvida, o mundo é delas.
Bombas, agora, só de chocolate...
Oxalá! Aleluia! Amém!!!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Sem críticas a burrice, ela não existe mais.

Cheguei a uma conclusão fenomenal, que, talvez, seja um alento: não existe mais burrice. Existe, sim, uma caixa louca de sonhos: O MUNDO.
Poderia ir mais longe, afirmando, segundo a minha filosofia de boteco nublada pelo antialérgico, que, desse modo, não existe sequer inteligência. Mas eu não afirmaria isso, pois essa ultima tiraria toda a nobreza e potência da primeira.
A lógica é simples: não há burrice, todos são inteligentes; uma maravilha. Perfeição da natureza, brilhantismo de Deus, azar do diabo.
Quanta discussão seria abrandada se partíssemos daí.
Doutores, mestres, graduados teriam que vender o seu peixe bem longe desse planeta e o bom e velho Peão Xadrez seria o rei de toda essa maquinaria.
Aquela pecha dos médicos, aquele olhar metido dos mestres, aquela pronuncia afetada dos advogados, a complexidade dos físicos, tudo morto. Estanque. Assunto de boteco, perda de tempo, falta do que fazer. Bobeira.
Aquele compendio de equações de física quântica ia ser devorado pelas traças com apetite.
Platão ia descansar em paz. Não ia reaparecer tão cedo. Talvez nos devaneios loucos de uma putinha, essas de bairro, que ficam em casa sonhando com “homens de posse ou pose”.
Heráclito e Parmênides seriam revistos sob a ótica narcisista de alguma loba inconformada com seus glúteos flácidos.
O Einstein seria inspirador de cabeleireiros.
Aquele chefe que carrega em si as insígnias do “expert sem inteligência” ia ficar muito feliz. Felicíssimo.
Todo o saber mais profundo carregaria em si a maior das banalidades.
Essas frases que eu ouço em todo lugar, do “Oiapoque a Uni”: isso não é interessante. Isso não tem relevância. Conversa pra boi dormir. Discurso vazio. Lábia. Lorota. Falácia. Auto-afirmação, tudo isso poderia ser colocado nos dicionários. Seriam as mais nobres verdades.
Se um dia estivessem Lacan e Freud a discutir psicanálise num banco de praça qualquer, isso seria um enfado até para os pombos.
A ausência de burrice ia nos deixar tão à vontade para criticar qualquer esforço “intelectual”, afinal, a negativa também seria deveras inteligente, ora bolas.
Se Deleuze falasse de simulacro, o máximo que conseguiria seria um contrato com a Microsoft e, se por vaidade, decidisse falar em “devir”, bem, poderia conseguir uma “boquinha” na globo como substituto do Mister M ou da mãe Dina.
Friedrich Nietzsche seria usado pelas mães como trava-língua, brincadeira para crianças em período de aquisição da linguagem.
O mundo é uma caixa louca de sonhos, solamente.
Provas? Para que? Quem haveria de reprovar?
Maldito seria o egoísta metido a besta que a formulou. Zombariam dele na praça. Crianças diriam: mãe, aquele não é o semideus que acha que precisamos de provas? E sua mãe diria: sim, ele mesmo. Coitado dele, né, mãe, deve estar louco...megalomania, né, mãe?
O fato de Joana amar e não ser amada não ia ser mais burrice, ia ser inteligência. Ia ser humanismo. Humanismo seria inteligência. Outra formulação que só é possível com a eliminação da burrice, infelizmente.
A burrice é o bordão da pós-modernidade para categorizar quase tudo que é humano. Afinal, ser humano não incide em ser imparcial, e tudo que é parcial não é cientifico, e tudo que não é cientifico é alternativo, e o que é alternativo é lixo, ou não?
Relações de poder seriam relações de igualdade.
Preto, pobre, branco, pobre, rico pobre, todos absolutamente inteligentes.
Os cargos de comando iam ser ocupados por uma virtude vitalícia, quase monárquica: o nepotismo. Abaixo do presidente os filhos dos pobres e sofredores. Simples.
Sem esse discurso de despreparo, de falta de títulos, de educação para lideranças, isto é, os reis seriam reis e o resto seria o resto, sem dor.
Aqueles excêntricos trancados dentro de laboratórios atrás de vacinas seriam só isso:excêntricos, afinal, a vacina seria descoberta por qualquer distribuidor de balas em semáforos.Bala? Bala? Bala? Bah! Tive uma grande idéia! E puff! Adios câncer.
Todo texto inextrincável seria “leitura-de-trono”. Mais proveitoso seria desenhar.
Com a extinção da burrice, a frase: “vamos direto ao ponto” ia ser fundamental.
Coitado daquele que ousasse problematizar. Para que? Quem não entendeu? Quem precisava de mais explicações? Quem?
Quem perguntasse seria executado em praça pública...
Pobre daquele que tentasse lançar mão de explicações mais formuladas: um “aparecido”.
Universidades seriam uma convenção social: lugar de lixar as unhas, arrumar maridos-filhos-de-reis ou ases, vitrine para aquele par de sapatos novos, dotes físicos, parafernálias eletrônicas, encontros carnais, feira de automóveis, teatro blasé, pólo gastronômico e, para os mais a esquerda, laboratório de vaidades.
No lugar das enormes bibliotecas erigiriam um templo para as fofocas via MSN.
O mais nobre dos livros seria o livro dos risos.
Ademais, diriam, parafraseando Pessoa: temos em nós todo conhecimento do mundo.

Estranho...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Pessoas que não passam

Outro dia estava escrevendo um verso em que citava: Estampidos de balas da Gestapo (fico imaginando a força de um verso desses, já que não há, no mundo, quem não consiga visualizá-los (tiros em inocentes em campos de concentração nazista, seguidos de frases intricadas de um alemão ditador de poucas vogais). Fiquei imaginando como certos tipos de cenas se arraigam na nossa mente como se as tivéssemos presenciado; como elas têm potencia, ou, ainda, talvez caiba a fala do Pessoa que diz que o poeta é um fingidor, para explicar essa familiaridade...
Como estudante Psi, dei atenção especial ao afeto, ao tipo de traço que faz esse registro subjetivo singular e inconfundível. E foi numa dessas conjecturas que eu acabei enveredando para outro caminho: o da relação urbanóide.
Não sei por que cargas d água eu sempre critiquei as relações construídas na cidade grande. Na verdade, eu sei. Esta velocidade, esta sensação de clímax, este agito que dura 24hs por dia da impressão de que nada é fixo, tudo é mutável, volúvel e instável.
Gente que se conhecia no trem, num daqueles papos sobre literatura ou música motivado pela camisa de um, ou pelo livro de outro. E nunca mais se via. Gente que se conhecia na “balada”, ficava, fincava e desaparecia. Pérolas de encontros, sede de destino. Gente que se conhecia no trabalho, trabalhava anos juntos, de repente, troca de trabalho e desaparece; perde-se no sem-fim de oportunidades e endereços e distancias do mundo capitalista. Gente que foi colega de faculdade, amigo, parceiro de trabalhos e tramóias. Fim de curso, um vai para o interior, outro vai para a Bósnia e fim de papo.
Ficava remoendo essas impressões, lembrando dos meus amigos de infância que seguem morando nos mesmos lares numa província do interior a décadas.Mudaram por dentro e por fora, para alem do bem e do mal já não são os mesmos, entretanto, estão lá, firmes, prontos para aquele reencontro e puxão de orelha porque, segundo eles, demoro muito a “aparecer”.
Na cidade, o caos.pensava que as pessoas da cidade estavam preocupadas demais com suas formações e formulações para vencer na vida: cursos, projetos, intervenções, vida social, aperfeiçoamento profissional e mais uns dois mil etceteras...pensava ate que nem se importavam, que o contato exaustivo com milhões de toneladas de aço e concreto tinham tornado tudo insípido, gelado, na melhor das hipóteses, morno: uma massa humana desejante que sonha com algum pódium inalcançável e, a bem da verdade, pobre demais para servir como norte,baliza, paradigma para a mais ínfima das existências, um sonho tolo.
Confesso que isso me entristecia.
Mas, há poucos dias, somente há poucos dias, passados mais de uma década levando a vida de urbanoide, é que pude entender o modus operandi das relações em uma cidade grande: não cidade grande as pessoas, o afeto por aqueles que nos cativam, ou a quem cativamos, não passa.
Vão-se os dias, meses, anos, e ele permanece intacto, cultivado por algum tipo de acordo tácito inalienável de amor e esperança de que o destino ainda irá uni-los novamente, de que haverá um reencontro, de que tudo e todos que desejam estar juntos estarão, mais cedo ou mais tarde, ao pé um do outro.
Talvez alguns mais esclarecidos pensem, sentados em qualquer obviedade: mas é claro que os afetos não passam, nem aqui, nem no interior, nem no sul do Sudão! E estão certos. A única coisa que eu queria dizer com tudo isso é que o que realmente faz diferença é se dar conta de que todos que conhecemos e que por fins diversos foram levados para mares distantes estão ainda conectados a nós com a mesma potência, com o mesmo laço de amor e amizade, com a mesma paixão.
Isso é que faz diferença: Sentir; e sentir é saber que orienta toda e qualquer existência. Sentir que não foi um encontro en passant, que foi uma história única, indelével e fecunda, e que os “nós” amarrados com o cordão do afeto estão todos presos em um tipo de limbo e que regressarão assim que o tempo tratar de unir as mãos, as vozes em coro, os braços em abraços, os risos em gargalhadas.
Esse saber despertou-me para aquilo que eu, cultivador do amor, mas destruidor de sonhos, poeta, mas matemático, esquerdista defensor da liberdade, bundão, estava querendo esquecer: tem pessoas que não passam.


“O amor é uma força, uma energia, que se manifesta
 na alma como um sentimento de lembrança de algo
 que a alma já teve, mas perdeu.” Platão.

“ Perdeu nada, Platão!!!”. Edson Leal

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A arte e a “nossa” vida

“Yes and how many ears must one man have
  Before he can hear people cry?"
(“Sim e quantas orelhas precisará ter um homem,
Antes que ele possa ouvir as pessoas chorarem?”)

                                                        Dylan


“ Ideologia, eu quero uma pra viver”

                                                       Cazuza



Dylan compôs essa canção em 1962. Cazuza, em 1988.

Dylan estava antevendo o que aconteceria posteriormente, em 1968, quando o mundo, começando pela frança, decide romper de vez com uma tradição maçante, voraz, oriunda de um tipo de capitalismo antropofágico. Acredito que foram poucas às vezes em que o idealismo esteve tão fortemente arraigado na mente e no espírito humano, a ponto de fazer uma corrente atravessar todo o ocidente clamando por “liberdade, igualdade e fraternidade”.Foi um grito que ecoou dentro de cada casa, de cada viela, de cada metro quadrado dominado pelo imperativo da submissão; e mesmo em países como o Brasil, que vivenciavam uma ditadura, ele se fez ouvir através de canções, de peças de teatro, manifestações públicas, enfim, através de ritos potencialmente subversivos.

Em 68 as pessoas estavam dispostas a ocuparem o lugar “humano demasiado humano” do qual foram desposadas ao se tornarem extensão de um processo maquinico, de se tornarem engrenagens de um movimento (capitalismo) que, segundo Marx, acabou com a magia das relações familiares tornando-as relações meramente comerciais.

Neste período de ideologias, o homem viu renascer a fênix grandiosa do amor e da esperança.

Entramos de “sola” na era das liberdades.

Mas, como “o tempo não pára”, logo ali, na esquina, em 1980, Cazuza já estaria clamando por uma ideologia, cantando “ideologia, eu quero uma pra viver”; era o brado do poeta estilhaçado, infectado mortalmente por todas as liberdades a que se tinha dado direito e que, de certo modo, herdara daquele “Maio de 68”.Ou seja, passado pouco mais de duas décadas mergulhado em profundo liberalismo, o homem moderno já estava sufocado novamente pela realidade; e precisa de um outro ideal para curar as chagas desenvolvidas em décadas de abusos e experimentalismos egocêntricos.

Se gerações oprimidas possibilitaram a seus descendentes um mundo de aparente igualdade e de culto a liberdade e ao prazer (em suma, um período de gozo), essas gerações descendentes tendo mergulhado nesse gozo acordaram decadentes e desorientadas a ponto de exigirem, inda que tacitamente, que seus pais fossem rígidos, inda que minimamente... O que deve ter colocado, definitivamente, uma pulga atrás da orelha “dos coroa”!!!

Foi neste meio, de gozo e de necessidade de um “pai doutrinador” que nasci; e inda mais, metade da minha família (a metade materna) optara por seguir a religião como principio absoluto, como norte, como contraprova de todo comportamento, uma postura,digamos, ortodoxa. Ao passo que, no braço paterno, todos optaram por uma vida sem limites e orientações morais que, ou consideravam desgastadas demais para seguirem, ou simplesmente ignoravam, dada a satisfação pungente da possibilidade de gozo eterno, em suma, uma polarização interessante...

Posteriormente, ou por ser, de fato, contemporâneo dessa geração “hy-tech”, cresci, dadas as proporções, junto com a malha de fibra ótica brasileira e, talvez por isso, não lhe tenho grande apreço, como ocorre, por exemplo, com Esaú e Jacó...

Agora, que somos absolutamente livres e, analogamente, presos, perversamente... que queremos desfrutar do nosso tempo com gozo mas somos castigados pelos alertas de um superego que quer estar a frente para poder lucrar com isso, agora, que misturamos os ideais românticos com toda racionalidade possível, cabível, descaradamente...agora, que a internet tornou-se uma espécie de Àgora (virtual), que adentramos no mundo do simulacro, que somos milhões de seres encarcerados num terreno amplamente urbanizado (selva de pedras), que participamos de redes sociais que carregam em si o status de “aldeia global”, agora, que vivemos bem perto de um “comportamento esquizo”, somos capazes de conformar esses dois refrãos, de experiência-los juntamente, embora estejamos sempre mais confusos, e com a sensação de que eles já não nos servem mais.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Quase uma epopeia

Mais um ano se passa.
Agora trintão, o menino do interior que queria ter um castelo aos vinte e cinco tem. Na verdade, tem três.
Virou o ano trabalhando como a muito, e não vê ai nem um mal.
Desde os contos libertinos, de Coelho a Van Gogh, de Quixote a Nietzsche, de Sthendal a Deleuze muitas águas se passaram.
Aqueles passeios com os outros meninos pós-expediente acabaram, os sonhos acabaram também.
Tem um mundo aos seus pés, um mundo que deseja, que pulse, que sonha, que é alucinadamente sedutor.
Mas que, no entanto, quase sempre lhe escapa a vista, a possibilidade, ao tiro.
É teatro para muitos, que respirem.
É Circo para outros, que riam.
É um pedaço de todos.Põe na receita um pouco de aprimoramento, duas leituras de Kant, um pouco de vinho, ou cerveja com amigos, um pouco de sonhos, duas metas, duas meias faculdades, um sem-fim de quilômetros de experiências, duas gotas de cansaço, um sorriso, um cabelo meio-grande-meio-curto, uma paixão por curtas, duas pitadas de cinema, uma dúzia de boas canções compostas, experiências sexuais (amor puro, pura putaria), dois pesos de liturgia (aquele canto gregoriano dos mosteiros na época de retiro que não sai da cabeça assim como aquela moça Batista na fila do Nacional falando sobre o poder da palavra e sua não desmistificação para aqueles capazes de ler-lhes apenas com o crivo da razão.Um pouco de filosofia desregrada, um pouco de poesia inacabada, um tanto de desdém por si.
Ali, ao lado, os outros. Comigo.
Todos os sonhos se unem como favos de mel...lindas mulheres, homens, crianças(divinas) com seus doces, mendigos, prostitutas, executivos, executadores, excrementadores, odores franceses e franciscanos, planos, paradas em toilletes podres, perfumes de velório, acordes de jovens músicos sonhadores, sinopses, leitores ávidos de manuais de concursos públicos, de diário gaucho, de mamilos rosados escondidos por sobre o tecido fino daquela jovem flor que se exibe com orgulho agarrada sexuadamente a barra de segurança...
A falta do Outro presente na extravagância americanizada do all star da molecada metralhada pelo melhor e pelo pior do american way life, no Oix dos mano, das mina, no olhar demente do prodigo consumidor de crack e de famílias.
Uma reunião com um dirigente de uma grande corporação pela manhã; à tarde, um picolé entregue na mão imunda de um moleque suburbano evidentemente preto e evidentemente fadado a ouvir a mesma balela liberalista de que toda essa porra de mundo é igual em oportunidades, em direitos e, por fim, em deveres; ah!ah!ah!ah! somente com histeria se suporta esse drama sem fim...
Passei a virada do ano com gente de todo tipo: como você, narcisista e metido(a) a intelectual, gente grosseira,gente faceira, gente rica- pobre- feliz, gente podre-rica-feliz, gentes tristes, gente inovadora,plug-and-play, gente Emotiva, radioativa, transexual...gente como você, que não sabe quem é, não sabe o que fazer, não sabe nos braços de quem sofrer, não sabe para quem mostrar os poucos troféus, não sabe acreditar de verdade naquele planejamento que da inveja na vizinhança...gente como eu, gentes gente-fina.Uma destoava das outras por assumir, assim, na laje, que bastava dar “feliz ano-novo” para a mãe que correria para vender o boné que ela lhe deu a pouco para fumar uma pedra...
Jovem, dionisíaco, traços finos em meio a uma arquitetura pitoresca; um morto-vivo ao vivo regando o riso de todos.
Aquele jovem era o teatro, era o ator, era a vida.
E os risos da platéia ecoavam por saber que também estávamos tapando o sol com algum boné que será vendido logo ali a diante.
Ohhhh!!! Que cenário de horror!!! Dirá algum leitor mais hipócrita e/ou conservador...
Mas espia dentro de ti, Fariseu, e verás que em ti, ou ao teu redor, um próximo, parente, família, que acorda todos os dias cansado de estar cansado e não poder fazer nada a não ser ir para o “pais das maravilhas” com algum bagulho junto e misturado, ou dar para alguém por dinheiro para sustentar os mais diversos vícios, ou assassinar a própria vida em detrimento de um sonho pequeno burguês que jamais será totalmente alcançado.
Espia a liberdade como eu. Mas sejamos escravos o mínimo possível.
Porque a nossa vida é quase uma epopéia.
E o menino já desconfia de tudo.
E que tudo pode ser possível.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Uma autoanálise...

Dois lados de uma mesmíssima moeda


Numa cidadezinha ao norte da Pensilvânia...
Eram duas pessoas.
E era uma só.
Acordava cedo com sono, dormia tarde, universitário, subproletario, micro empreendedor, equilibrista orçamentário.
Solicito
Atento
Arguto
Rebento que arrebenta.


Acordava tarde, ou não acordava, sua vida era um sonho intangível, de um realismo mágico a La Gabo nos seus dias altos de Cem Anos de Solidão. “bicho solto, cão sem dono, menino perdido” entre estrelas peitudas habitantes das águas de Netuno: O cabra era ligeiro, gatilho pronto, poeta de letras miúdas
Amável
Amante
Deliciosamente indolente.
Deus de seu tempo.


Negociava empréstimo sobre empréstimo, sofria. Alíquotas, cotações, climatempos...
Naus de idéias capitais...
Era cético de saldo negativo
Nietzsche de aluguel.
Vivia perambulando entre um desejo sádico de dar um golpe de estado no patrão
De libertar-se enquanto escravo
E de escravizar enquanto Tirano
Era vil, covil, insanamente racional
RezaDor.


Sorria como um Sol.Iluminava.Espraiava sua indolência para alem da impressão grosseira da preguiça.
Servo de si, tinha o gozo por limite.
Mas sempre gozava depois
Bebia um vinho acolhedor
“Acolhegria”
Com os braços estendidos qualquer amigo estranho que passasse
Passava...
Como o passarinho.

Discutia ferrenho ao telefone:
-Demônio de empregada
Suas roupas estavam sempre velhas, esfarrapadas, sapatos novos, cara nova
Nova privada.
No almoço A LA Minuta padrão
De cabeceira
Os sonhos deixava na rua
Para não atrapalhar a razão
Nem o apetite
Do estúpido patrão


Viajava mil vezes de dentro de sua rede
Estendida
Como nuvem num cenário pitoresco
Hercúleo
Belo
Com o martelo da paciência, talhava
Sua Majestade
Sua fé
Sua liberdade
Brilhante


Um dia, num retorno para casa no transito cruzado,
Engarrafado
Lento
Cruzaram-se.
Irremediáveis
Os dois formaram um
Os dois formaram uma moeda
De “grana”
De “fonte de desejos”
De agonia.


Era um embolamento, embolia
Patrão filho-da-puta, corno de cá,
Dinâmico e objetivo, de lá
Na rua, os pássaros
Na rede, o tempo
No escritório, a guerra


Na sinaleira, aquele mendigo fétido e sorridente estranhara os “cinqüenta paus”,
Um se retorcia nos fundilhos batidos de uma calça cortada por estilista de Nome,
Outro se ria daquela fome
Era um enrosco
Lindo e tosco


Enquanto um “retroaviso” corria na mente focada do destemido
O outro corria com as crianças nas ruas
O inferno dos relatórios atrasados
Tanta guerra por trocados
“ao vencedor as batatas”
Bem no peito, arritmia
Bem no coração um amor
Pra Maria


Piranha
Puta
Podre
Linda
Leve
Nobre


Nem penso em tocar naquela sujeira
Quero me lambuzar, fazer besteira
Era sempre um embolamento
Uma discussão
Ou era o Chico, ou o Chicão...