terça-feira, 18 de outubro de 2011

Eu confesso:

Três décadas de verdades construídas com algumas lagrimas e suor (afinal,criação é transpiração). Uns bonés antigos dos tempos ruralistas, umas medalhas de bronze corroídas pelo tempo, uma fita cassete azul com um ‘disco’ dos Stones, uma guitarra barata e furiosa, um violão pequeno burguês, um dicionário de latim doado por uma bibliotecária charmosa aos noventa,uma coleção de camisetas pretas abandonadas pela inspiração,um all star carcomido pelas peladas e piadas, algumas canções de amor,outras de dor,outras de tédio, outras que se propunham a remédio...
Um discurso errante, inseguro,frágil.Um punho aposentado já a algum tempo.
Uma caricatura do Cavaleiro da Mancha que eu fiz aos quinze, pintei aos dezoito e vesti aos trinta...
Amigo de todo tipo, até do tipo que não é tão amigo, mas faz falta quando some...doidos,pirados,sonhadores,idealistas, metódicos, maltrapilhos, caretas, carecas, do tipo ‘titio’, narciso, menina vaidosa, bonitona insuportável, tapetes vermelhos nos templos do Nada, amigas sisudas, metro e meio de perna, karate, Katinguele, Karapintada, Karapálida,Kamikase...
Aqueles senhores com quem faço um som caipira atravessando os acordes nas suas vozes de campeiros de verdade sem escudo nem reconhecimento do estado...Amigo peão(dos bons).
Amigas, santas da psicologia, da posologia, da pedagogia, da pornografia,da coragem, da vaidade, das pernas de fora no frio que se segue...das dores de amor mesmo que negue...amigas azuis, verdes,vermelhas e um tipo sem sal e intolerante e intolerável do tipo ‘eu-acho-que-o-mundo-inteiro-me-ama’.Amigas de boteco, de bilhetes e de lama...
Que beleza poder fazer o bendito exercício metacognitivo e dizer para si mesmo do alto da crise existencial que rege todo aniversario: “tem sido bom essa loucura toda...esse contrato de verdade...essa fraqueza...essa disposição a abraçar antes de dizer oi...tem sido bom ver que aqueles primos gêmeos e irmãos continuam amando a si e aos outros com tanto vigor,mesmo depois de tanta neve...mesmo depois de tanta prece,mesmo depois de tanto amor, porque o amor, as vezes, é um veneno letal...
Tem sido bom contemplar tudo com um pouco de afastamento...isto é, ser um projeto de autonomia kantiana com boas doses de caipirismo, como se aventura a dizer por ai um moço muito meu amigo.Tem sido bom redigir o ‘discurso de eu’ com vistas na grandeza absoluta do outro, seja la que outro for...
Eu já virei a casaca muitas vezes... Fui maragato,chimango,brasileiro convicto...eu já fui romântico, introspectivo,faceiro...negro,branco,vendedor de abacaxis e sonhos...vejo uma molécula minha em caras como aqueles que arrumam as estradas com panos úmidos na cabeça, felizes porque os outros seguem adiante;vejo nos poetas,filósofos,doutores,professores,pintores,peões,leiteiros alemães bonachões e com vividos olhos claros, vejo nas reticências de uma menina com quem pouco tenho contato,por quem nutro grande afeto...
Vejo em tudo isso uma centelha flamejante e desvairada que eu chamo de vida.
Vejo minha filha crescer com um sorriso-saude-sem-preço, colorindo o meu castelo.
Vejo minha ‘namoradinha-de-uma-década’ reluzindo beleza e frescor raros.
Tenho as mãos de minha mãe sobre a minha fronte, como Santa da qual sou devoto...
Tenho lembranças do meu pai,vívidas como eu...
Tenho irmãos que me dão orgulhos e orgulhos, de modo que ate esqueço a síndrome do irmão do meio...
Tenho tanto do que não se pode vender ou comprar que eu até me assusto vez que outra...
Tenho uma solidão solidária, que me ajuda a chegar perto de quem não tem vez...
Tenho um pouco da ignorância e orgulho que ferem a alma.
Tenho firmado a minha condição de quixotista com meus discursos e brinquedos,gerando amor,por vezes,medos...
Tenho a certeza que eu estou no meu caminho, ainda que esta certeza esteja somente ao lado Del camino ainda antes do último acorde dessa pequena e trôpega narrativa.

3 comentários:

disse...

li muitas vezes e ainda não encontrei as palavras certas... se é que elas existem...

Camila disse...

Grande Ed...descrevendo o indescritível, o sabor de viver a vida sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos...

Sheila S.S. disse...

Mas que bonito isso, meu caro colega! Gostei um tantão!